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"A alma é uma coleção de belos quadros adormecidos, os rostos envoltos em sombras. Sua beleza é triste e nostálgica porque, sendo moradores da alma, sonhos, eles não existem do lado de fora. Vez por outra, entretanto, defrontamo-nos com um rosto que, sem razões, faz a bela cena acordar. E somos possuídos pela certeza de que esse rosto que os olhos contemplam é o mesmo que, no quadro, está escondido pela sombra. O corpo estremece. Está apaixonado."
Rubem Alves, no livro “Do universo à jabuticaba”. São Paulo: Planeta do Brasil, 2010, p. 37.
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   The mass-man would never have accepted authority external to himself had not his surroundings violently forced him to do so. As to-day, his surroundings do not so force him, the everlasting mass-man, true to his character, ceases to appeal to other authority and feels himself lord of his own existence. On the contrary the select man, the excellent man is urged, by interior necessity, to appeal from himself to some standard beyond himself, superior to himself, whose service he freely accepts…. Contrary to what is usually thought, it is the man of excellence, and not the common man who lives in essential servitude. Life has no savour for him unless he makes it consist in service to something transcendental. Hence he does not look upon the necessity of serving as an oppression. When, by chance, such necessity is lacking, he grows restless and invents some new standard, more difficult, more exigent, with which to coerce himself. This is life lived as a discipline — the noble life.

For me, then, nobility is synonymous with a life of effort, ever set

on excelling oneself, in passing beyond what one is to what one

sets up as a duty and an obligation. In this way the noble life

stands opposed to the common or inert life, which reclines

statically upon itself, condemned to perpetual immobility, unless

an external force compels it to come out of itself. Hence we apply

the term mass to this kind of man- not so much because of his

multitude as because of his inertia.

As one advances in life, one realises more and more that the

majority of men are incapable of any other effort

than that strictly imposed on them as a reaction to external

compulsion. And for that reason, the few individuals we have

come across who are capable of a spontaneous and joyous effort

stand out isolated, monumentalised, so to speak, in our experience.

These are the select men, the nobles, the only ones who are active

and not merely reactive, for whom life is a perpetual striving, an

incessant course of training. Training = askesis. These are the
ascetics.

        José Ortega y Gasset, ‘The Revolt of the Masses’.

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Da religião demo-humanitarista!

(…) Mas é ali que a democracia moderna revela as suas pretensões ao estatuto de religião: não é já um modo de escolha dos governantes, ela tem um corpo doutrinário infalível e obrigatório, ela tem um catecismo: os direitos do homem, e fora dos direitos do homem não há salvação.

A democracia moderna detém outros elementos indispensáveis a qualquer religião.

Um paraíso: Os países democráticos liberais, com, de preferência, uma legislação anglo-saxónica.

Um purgatório: As ditaduras de esquerda.

Um inferno: As ditaduras ditas de direita.

Um clero regular: os pensadores encarregados de adaptar as teses marxistas às sociedades liberais.

Um clero secular: Os jornalistas encarregados de disseminar esta doutrina.

Cerimónias religiosas: As grandes emissões de televisão.

Um índex tácito que interdita que se tenha contacto com toda a obra cuja inspiração seja repreensível. Este índex é admiravelmente eficaz sob a forma de conspiração do silêncio mediático, mas é por vezes utilizado de maneira mais draconiana ainda: os livros julgados deficientes do ponto de vista da democracia são, não ainda queimados numa fogueira, mas já retirados das bibliotecas escolares, como aconteceu em Saint-Ouen-L’Aumône.

Uma Inquisição: ninguém tem o direito de se exprimir se não está na linha recta da religião democrática e, se consegue ainda assim fazê-lo, paga as consequências: o linchamento democrático a que foi submetido em França um Régis Debray ( que ninguém suspeitaria de não ser democrata) porque colocou em causa a legitimidade dos crimes de guerra cometidos pela NATO em 1999 sobre o território da Jugoslávia é exemplar a este respeito.

Congregações de propagação da fé: Oficinas de desinformação, ditas de comunicação ou de relações públicas.

Missi-dominici e bispos in partibus sob a cobertura, seja das diversas ONG, seja da ONU.

Os indultos, geralmente atribuídos a antigos comunistas.

Uma legislação penal e tribunais encarregados de punir quem quer que coloque em causa a versão oficial da História.

E mesmo tropas incumbidas de evangelizar os não-democratas pelo ferro e pelo fogo: vimo-lo bem desde que 19 nações democráticas se uniram para ir bombardear um pais soberano com o qual não estavam em guerra.

Hoje, uma frase como em nome dos direitos humanos utiliza-se quase como em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo se utilizou durante séculos. Reencontrámos, talvez, o sentimento do sagrado, mas não creio que seja um sagrado de boa cepa.

        Vladimir Volkoff, in Pourquoi je suis moyennement démocrate, Éditions du Rocher.

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"(…) a leitura é um pacto de generosidade entre o autor e o leitor; cada um confia no outro, conta com o outro, exige do outro tanto quanto exige de si mesmo. Essa confiança já é, em si mesma, generosidade: ninguém pode obrigar o autor a crer que o leitor fará uso de sua liberdade; ninguém pode obrigar o leitor a crer que o autor fez uso da sua. É uma decisão livre que cada um deles toma independentemente."
  Jean-Paul Sartre, no livro “Que é a literatura?”